A atual pornografia do ultraje

Este vai ser daqueles posts que eu tenho certeza que muita gente vai ler e minutos depois vai passar a me odiar. Com uma análise ao longo do tempo a pessoa até vai concordar com alguma coisa.

Mas ele foi feito mesmo para provocar um pouco. Até porque eu me senti bem provocado ao ler sobre isto em um livro que estou devorando agora. O livro é o ótimo “A Sutil Arte de ligar o Foda-se” e em um dos capítulos ele fala sobre o atual vício das pessoas de se sentirem injustiçados por tudo e todos.

Muito disto acaba vindo daquela necessidade básica de transferir a culpa para terceiros. Nós não temos o preparo, na maioria das vezes, para reconhecer que somos responsáveis por tudo que nos acontece.

Ou seja, se não conquistamos o emprego dos sonhos, a culpa é da sociedade ou do seu chefe que não lhe deu a promoção. Se você está acima do peso, a culpa é da mídia e de um modelo de ‘corpo ideal’ que você nunca alcançará ( mesmo sabendo que, sim, isto é possível ).

O grande lance de terceirizar a culpa é que isto é viciante. Causa uma euforia que acabamos por não reconhecer. E como toda vício, o viciado nunca reconhece que é dependente daquilo

Em um mundo de redes sociais a coisa piora. Pequenos erros, que seriam perdoados numa boa entre amigos se tornam pecados mortais. Uma pessoa fala uma pequena bobagem ( sim, todos falamos bobagens ) e a partir dali, é decretado a morte da pessoa.

Hoje há ativistas em redes sociais para qualquer coisa. Esta “injustiça chique” tornou o mundo um mar de injustiçados. Desde o rico até o pobre todos tem motivos para achar que alguma parcela da sociedade a está oprimindo, ou seja, vitimando-o.

O problema é que isto torna a sociedade mais fraca, e até você que se sente injustiçado a todo o tempo. Se por um lado há momento em que realmente somos injustiçados, esta Pornografia do Ultraje está calando os que realmente estão sendo injustiçados.

No livro é citado Ryan Holiday que fala sobre o papel da mídia neste novo vício mundial. Ou seja, ao invés de reportar histórias e problemas reais, a mídia acaba optando por coisas levemente ofensivas, pois elas causam comoção e são facilmente consumidas pelo público. Mas o mais engraçado disto é que a mídia ganha de dois lados. Se por um lado ela ganha a empatia do público que acha que aquela pequena ofensa é real, ela ganha antipatia daqueles que acham aquilo sem sentido. Divulgação garantida. Lucros enormes.

Mas é complicado isto. Pois quanto mais gente se sente injustiçado, mais as pessoas se tornam frias ao pedido de socorro. E aí, aquele que realmente foi injustiçado e precisaria de nossa ajuda, será engolido por este monte de outros problemas que estão por aí. E, além do que, temos também um outro problema.

Você começa a naturalizar algumas coisas. Palavras que antes tinham sentidos enormemente ofensivos, passam a ser vistas como “menos ofensivas”.

Muita gente acaba não enxergando o quanto o ego se infla nestes momentos. Na maioria das vezes a maioria das pessoas faz isto para se sentir superior e dono de uma moral que está acima de tudo e todos.

E esquece, talvez, que em algum momento da vida possa ter errado. Ou até que esteja escolhendo uma luta que não faz lá tanto sentido.

Temos que aprender que nem sempre estamos certos. Parte da missão de viver em sociedade democrática ( livre ) é ter que lidar com opiniões contrárias. Com pessoas que não vão querer dividir o mesmo espaço com você porque acham seu modo de vestir ofensivo. Não querer dividir a mesa com você por causa de sua religião, sua opinião política, etc.

Ninguém é obrigado a gostar de você. Mas é obrigado a respeitá-lo. A pessoa não é obrigada a dividir a mesa com você, mas ao mesmo tempo, não pode ( e nem deve ) retirar o seu direito de estar ali.

A grande lição que temos dos dias atuais é que, ao contrário de nossos antepassados, estamos sendo incapazes de escolher lutas reais. De realmente entender que às vezes o seu “inimigo” nada mais é que uma outra pessoa que está em um momento diferente da vida.

Parte da polarização que vemos hoje é fruto disto. As pessoas não olham as coisas com ceticismo e com a razão. Usam sempre a emoção.

Por isto hoje se vingar de alguém está acima, da capacidade de perdoar e se colocar no lugar do outro. E vidas e mais vidas são destruídas neste mundo conectado. Até porque, é muito fácil destruir a vida de alguém que você nunca será obrigado a olhar nos olhos, não é ?

Eu acho que esta pornografia do Ultraje, esta necessidade de estar ofendido está nos afastando de valores legais. Honestidade, fomento a transparência e até, aceitação da dúvida.

As pessoas hoje usam máscaras porque o mundo nos pede máscaras. Hoje, você não pode expressar sua opinião pois você pode ofender alguém e a partir dali virar alvo de militantes de alguma área específica. A trasparência deu lugar a um teatro social enorme.

E isto vem da necessidade terrível das pessoas de estar certas. Temos que ter a capacidade de entender que podemos estar errados. E até, que, podem existir formas diferentes de ver o mundo e a vida.

A honestidade é o valor principal que temos que valorizar ( mesmo que a frase tenha ficado estranha ) . E não, não é só a honestidade de não cometer atos ilícitos.

É também ser honesto consigo mesmo e entender que você, tal qual qualquer pessoa, é um ser que erra. E que precisa exercitar a capacidade de ouvir os outros e reconhecer que é falho.

Em uma sociedade de pessoas que sempre estão certas, nunca haverá evolução. Estamos fadados a caminhar para isto, se não mudarmos o caminho das coisas.

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